Você sabe a diferença entre ESG e Sustentabilidade?
Uma das conversas que tenho com mais frequência é sobre usarem ESG e sustentabilidade como sinônimos, e quando você reflete, percebe que a estratégia inteira foi construída em cima de uma confusão conceitual.
Não é um detalhe técnico. É uma diferença que muda o que você mede, o que você prioriza e o que você consegue entregar.
O ponto de partida é o Relatório Brundtland, publicado pela ONU em 1987. A definição que ficou simples e poderosa:
"Desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazerem as suas próprias necessidades."
Essa idéia nasceu de uma preocupação, não empresarial. Ela fala de planeta, de gerações e de limites físicos do crescimento. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS) são a tradução mais atual dessa visão, uma agenda global que envolve governos, sociedade civil, empresas e indivíduos.
Sustentabilidade, portanto, é um conceito amplo, sistêmico e de longo prazo. Ela não pertence a nenhuma empresa, pertence ao mundo.
Environmental, Social e Governance surgiram como uma linguagem do mercado financeiro para avaliar riscos e oportunidades não financeiros nas empresas. A pergunta central do ESG não é se o mundo está melhorando, mas sim se a empresa está gerenciando bem os fatores que podem afetar seu desempenho.
O ESG é uma abordagem de gestão. Ele tem métricas, frameworks, ratings, relatórios. Ele conversa com investidores, analistas e conselhos. Ele é operacionalizado dentro de uma organização, com responsáveis, metas e indicadores.
A confusão com sustentabilidade é compreensível porque os temas se sobrepõem muito, mas a sobreposição de temas não significa identidade de propósito.
ESG não é um novo nome para sustentabilidade. São perspectivas diferentes, com premissas e objetivos distintos que podem convergir, mas não se substituem.
Para entendermos como se separa os dois na prática, citarei algumas teorias que ajudará a entender isso. Em 1970, Milton Friedman defendia que a única responsabilidade social de uma empresa era maximizar o lucro para seus acionistas, respeitando as leis, nada mais. Em 1984, Edward Freeman propôs a Teoria dos Stakeholders: a empresa cria valor quando considera os interesses de empregados, clientes, fornecedores, comunidades e meio ambiente, não apenas dos acionistas.
O ESG nasce mais próximo de Freeman, ele reconhece que ignorar impactos socioambientais gera riscos reais para o negócio. Mas ele ainda parte de uma lógica empresarial. A sustentabilidade parte de uma lógica planetária.
Uma empresa pode ter um excelente score ESG e ainda assim contribuir para dinâmicas sistêmicas insustentáveis. E o contrário também é verdadeiro, uma organização pode ter compromissos genuínos com sustentabilidade sem ter ainda estruturado um programa ESG robusto.
Para quem trabalha com governança, quem está construindo ou estruturando uma área de ESG, essa distinção conceitual não é filosófica é operacional.
Ela define se você vai medir impacto ou apenas risco. Se sua estratégia vai responder ao mercado financeiro ou a uma visão de longo prazo mais ampla. Se o seu relatório vai contar uma história verdadeira ou apenas cumprir um protocolo.
Na minha visão, as empresas que mais avançam são as que conseguem usar o ESG como estrutura de gestão e governança, e ao mesmo tempo conectar isso a uma visão genuína de sustentabilidade, que vai além dos próprios muros da organização.
E o mercado está cobrando isso com mais precisão do que nunca. Governança, estratégia, gestão de riscos e métricas ESG precisarão estar integrados e auditáveis. Quem já construiu essa base sai na frente.
Você já se deparou com essa confusão dentro da sua organização? Como lida com ela no dia a dia? Me conta aqui nos comentários.
Referências
ONU Brasil. Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: brasil.un.org/pt-br/sdgs
Brundtland, G. H. (1987). Our Common Future. World Commission on Environment and Development.
Freeman, R. E. (1984). Strategic Management: A Stakeholder Approach. Pitman Publishing.
Friedman, M. (1970). The Social Responsibility of Business is to Increase its Profits. The New York Times Magazine.